(Des)construindo Paris

Vejo muita gente falando que dinheiro não compra felicidade, mas você pode ficar triste em Paris. Que queria tá sofrendo em Paris. Só digo uma coisa: não queira. Chore na cama que é lugar quente. Perto de gente que fala tua língua, que gosta de você. Cai nessa furada não.

Pra começar, se você não gosta de história, ver os símbolos da revolução francesa, dos grandes pensadores, de visitar exposições em museus, talvez você não vai ter muita coisa pra fazer em Paris não. Pra quem curte, 1 semana é até pouco, mas pra quem não curte… sei lá vai dar um rolé na Torre Eiffel, uma volta pelo Sena, olhar as pirâmides do Louvre, bater perna, frequentar uns bares, uns restaurantes, bistrô, olhar umas praças e vai perguntar “e aí? Só isso?”. Se não muito a tua vibe, sei lá, gasta teu dinheiro em outro lugar primeiro. Amei estar em Paris? Quase cada segundo, mas tenha em mente que  Paris pode ser um pouco super estimada no imaginário popular #supersincera

Verdade seja dita e devo dizer pra você que Paris é a cidade das filas. No meu primeiro dia peguei uma SUPER fila pra entrar no museu l’Orangerie. E tava muuuuito frio. E eu ainda não tinha pego o jeito de como me aquecer, era meu primeiro dia. Eu tava quase congelando e a fala andando a passos leeentos. Aí eu finalmente comprei meu museum pass (que te dá direito a entrar em vários museus “de grátis” e furando fila) de 6 dias, me arrependi, o de 4 era suficiente pra mim.

fila-orangerie
Fila para entrar no museu l’Orangerie. Isso era depois da curva, lá pro outro lado tem mais

fila torre eiffel
Essa fila aí dando voltas e zig-zags era pra descer da torre Eiffel, frio demais!

Outra fila na qual quase congelei era a pra descer da Torre Eiffel. E nessa eu já tinha pego a manha de como me aquecer. Nas filas da Disney Paris, quase congelei idem, nas margens do Rio Sena também. E é muito ruim!!! Sofrer em Paris é muito ruim. Palavras não expressam o quanto entrar em estágio inicial de hipotermia é ruim. Isso porque fui na primavera quando o tempo já devia estar abrindo e a temperatura subindo.

Cara, muito dos passeios que eu planejei, era ver praças, coisas ao ar livre. Você acha que deu pra aguentar? Tinha momento que era simplesmente insuportável, a gente entrava em qualquer lugar só pra usufruir um pouco do aquecedor, se aquecer um pouquinho pra poder retomar. Não sei como aguentei sem um resfriado.

E em Paris chove todos os dias da vida, que parada enjoada, eu passei todos os dias da viagem com o mesmo casaco, porque era o único impermeável que eu tinha, porque eu sabia que em algum momento ia começar a chover. Uma chuva fina, chata e gelada.

agasalhada
Não era raro me encontrar vestida assim por lá


E o frio que peguei lá em termos de temperatura deveria ser igual o frio que peguei em Curitiba no inverno, mas o frio de Paris é pior, não sei se tem a ver com humidade, com vento, mas 4º em Paris é bem mais frio que 4º em Curitiba. Você pode tá todo agasalhado, mas vai ter sempre uma parte sua incomodada de frio. Quando aprendi aquecer meu tronco. O pescoço começou a reclamar, aí botei cachecol. Aí o pé da orelha, arrumei um gorro. Aí o rosto, e pro rosto eu não tinha nada, só podia aceitar aquele vento gélido cortando minha pele.

E se você não falar francês, você não se comunica. A galera não fala inglês (pelo menos não tive sorte de achar alguém disposto a se comunicar em inglês comigo, mesmo eu abordando inicialmente em francês). Ainda bem que Paris é bem auto-explicativa e não precisei me comunicar muito com franceses. E aí eu recomendo o aplicativo duolinguo e um dicionário online e o mapa de Paris salvo offline, porque wifi só nos estabelecimentos mesmo. Paris ainda não respira wifi. Amsterdã, sim, respira wifi.

As pessoas ficam muito chocadas quando eu digo que comi os macarons mais bem avaliados de Paris (Pierre Hermé e Ladurée), mas achei os que eu comia no Plaza Shopping Niterói melhores (antes da loja fechar – acho que se chamava Paradis). Cara. O macaron é bom. Mas o do plaza era melhor, simples, a massa fininha, derrete na boca. Se esforce mais, Paris.

Sabe uma coisa que no princípio eu fiquei tipo nossa, que legal? Em Paris, as pessoas pedem grana no metrô fazendo música. Na primeira vez que aconteceu eu pensei “que legal, aqui eles fazem arte para pedir grana”. E achei melhor que na minha terra. Muitas vezes me senti intimidada aqui no RJ, como se eu fosse obrigada a comprar. Tem uns educadinhos, mas tem vários que não gosto por causa da grosseria e má educação. Achei Paris massa, uma parada menos invasiva. Bom, curti no máximo umas 2 vezes. Na terceira já comecei a perceber a desafinação. Achei chato. Achei que tava incomodando a viagem com barulho. Kkk as coisas a primeira vista sempre me parecem muito gourmetizadas.

Mas devo admitir que uma coisa que eu gostei é não entender 1 palavra em francês e daí dormia pra sempre nos transportes, sem ter ninguém contando histórias em voz alta de treta de família, desilusação amorosa. Apenas paz.

Outra coisa que não te falam de Paris? A quantidade de golpistas. Na Torre Eiffel achei verdadeiramente intimidador, sabe? Várias pessoas procurando um trouxa para aplicar o golpe. Seja amarrar fitinha no seu braço. Seja se apresentar como representante de alguma causa e aí pegar seus dados. Se alguém chegar pra você “Do you speak english?”, não caia na tentação de dizer “Yes”. Vai se afastando, fingindo que não tá entendendo, fazendo não com a cabeça. Franceses não golpistas não vão perguntar se você fala inglês. Vão nem olhar pra sua cara. Muito menos falar com você em outra língua.  Em Notre Dame o assédio é igualmente chato.

champsdemars
O que essa foto não conta é que eu tava louca pra sair correndo dali. Eu já tinha sido abordada algumas várias vezes em tentativas de golpe e tava com medo de ser roubada. Detestei a parte da Torre Eiffel que fica pros Champs de Mars

Muita gente me perguntou, e aí o que achou dos franceses? Simpáticos? Oooolha, simpáticos eles não são não. São educados e gentis, mas simpático não. Eu fui pra Amsterdã de trem, imagine eu subindo e descendo escadas abaixo com mala! PERRENGUE MÁXIMO. Mas vários franceses se aproximavam, não falavam nada, só faziam gesto de quem tinha intenção de ajudar, e me ajudavam carregar a mala. Agradecia “merci”. E eles “De rien”. Já me ofereceram lugar pra sentar no metrô. Mas não espere sorriso, nem small talk.

Mas lá em Paris eu entrei e vi lojas que aqui no Brasil eu não passo nem perto da porta. Aqui, sei lá, os empregados te olha com desdém, sabe? Lá não tem disso. E nem assédio. Tudo de bom. Poder olhar as coisas sem ninguém em cima de você. Ou querendo te convencer de algo. Só fiquei triste que algumas lojas sephora não tinham produtos que eu queria no meu tom, tom de brasileira. Nada é perfeito. Então se quiser comprar algo específico, vá numa que seja beem grande. Não vai ter dificuldade de achar, em Paris elas estão aos montes

Eu fiquei bem decepcionada com Paris em termos de acessibilidade. Escadas demais. Eu só conseguia pensar “gente, quem tem alguma restrição de mobilidade nunca visitará Paris” e isso me deixava aborrecida. Arco do triunfo? Degraus pra caramba. Notre Dame? Degraus pra caramba. Estação de metrô? Degrau pra caramba. Me disseram “são construções bem antigas né”. Parei para pensar e realmente, mas ainda assim, já deu bastante tempo de se modernizar, de superar esses desafios de reengenharia.

Uma decepção foi farmácia, mas foi uma decepção engraçada. Uma farmácia apareceu no meu caminho, pensei vamos lá ver se tem cosméticos baratinhos. Eu estava esperando ver batons e esmaltes de um euro, não rolou porque nas farmácias só vendem remédios meeeesmo. Pra não dizer que foi de todo ruim comprei uns produtos bem em conta da La Roche Posay e da Vichy.

Nessa viagem eu tive muitos problemas aéreos, com isso demorei pra me estabilizar em Paris, enquanto estava enrolada e com problemas, passei uns 2 ou 3 dias inteiros comendo miojo no almoço e na janta. Não aguentava mais, mas economizei bem.

E sobre os franceses serem fedorentos, juro que não percebi, também não sou a pessoa mais adequada para avaliar, eu quase não respiro.

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