Falando mal de Amsterdã

Por enquanto Amsterdã é minha cidade favorita no mundo, mas se você achou que ela ia escapar da minha língua afiada, você se enganou.

Vamos começar: Esse negócio de ciclovias e bicicletas e tudo o mais é incrível, é mesmo. Admiramos Amsterdã por isso e ela deve ser admirada, mas acredite, a teoria é MUITO mais bonita que a prática.

O trânsito de bicicletas pode até ser meio estressante. Vi gente ficando estressada, porque é igual trânsito de carros só que de bicicletas. As pessoas te cortam, buzinam pra você. Teve um honlandês que “me xingou”:
-WHAT THE FUCK !

E eu tô sem entender até agora o que eu fiz de errado, juro. Levei na esportiva. Mas teve gente comigo que ficou muito aborrecida, é uma loucura! Se você acha que vai conhecer Amsterdã de bicicleta de uma maneira super relaxante e tranquila, pense novamente. As pessoas vão trabalhar e estudar de bicicleta, as pessoas tem hora… Tem lugar que tem semáforo pra bicicleta, tem lugar que não, tem rua que tem mão e contramão em lados opostos da pista, tem rua que não… é complicado.

Fora que a sensação que eu tive é que os ciclistas são a prioridade do trânsito e isso me parece tão errado. Pra mim a prioridade deveria ser o elo mais frágil dessa cadeia: o pedestre. Pode ser bem irritante você tentar caminhar e bicicletas buzinarem pra você o tempo todo. Além do desafio que é atravessar certas ruas, não basta estar atento aos carros, ônibus e trens que dividem as ruas, você ainda tem que observar se não tem nenhuma bicicleta passando. Os ciclistas não podem parar se você já iniciou a travessia, eles vão buzinar pra você e você é quem tem que sair da frente deles.

Fiquei poucos dias em Amsterdã, uns 4 ou 5, mas presenciei um episódio que me fez questionar se certas ciclovias são mesmo segura ou o quão pacificamente os carros e bicicletas realmente convivem. Eu tirei a bicicleta da ciclovia, levei pra calçada pra observar um canal. 2 segundos depois passou um carro a toda bem onde eu estava segundos antes (sim, em cima da ciclovia). A propósito: gente, as pessoas tem carros incríveis em Amsterdã. Quase fui atropelada por uma BMW irada.

Falando de experiências de quase morte… um belo dia tô eu passeando de boas com minha bicicleta quando um policial me abordou falando holandês:
– GFJHGKLHSSHËTYRIKG
Você fala holandês? Pois é, nem eu… eu não sabia como lidar com aquela situação, minha reação foi responder em inglês
– Sorry? (Perdão?)
E como todo mundo fala em inglês em Amsterdã (inclusive vi moradores de Amsterdã falando em inglês entre si) ele me respondeu:
– You are not allowed to ride your bicicle on this street (Não é permitido andar de bicicleta nessa rua)
Eu fiquei muuuuito tensa de estar tomando uma bronca de um policial holandês. Minha primeira bronca oficial internacional. Respondi:
– OK, I’m sorry…? (Tudo bem, desculpa…?)
Sei lá e o cara deve notado minha tensão e resolveu me explicar o porquê daquilo:
– …It is because of the train lines (É por causa da linha férrea)

E só então eu me dei conta que eu estava andando sobre a linha do trem. O trem de Amsterdã é do tipo veículo leve sobre trilhos não tem sinalização na rua, não tem relevo, não tem nada, ele simplesmente está lá discretamente no chão da rua e eu estava distraída. Gente, se tivesse passado um trem só restaria patê de blogueira. Essas viagens ainda me matam.

E por falar em transporte, o sistema de transporte de Amsterdã poderia ser mais fácil de utilizar por leigos. Se não pesquisar, fica a pé… Só fui aprender como ele funciona pelo meu 3º dia. Por que as cidades não podem ser como Paris? Na estação tem máquinas, você insere o dinheiro e resgata tickets.

Uma coisa em Amsterdã que me deixou muito bolada (dessa vez positivamente) foi a segurança do aeroporto. Geeeente, o que era aquilo? Parecia coisa de televisão. Minha mãe gosta de ver esses “documentários” tipo Aeroporto Colômbia que mostra como eles pegam as pessoas que passam tentando viajar com drogas e tal. Cara, me senti num episódio dessa série. Depois que eu passei pela segurança até liguei pra minha mãe pra contar. Além de passar pelo detector de metais, tive de passar pelo scan corporal, aquele que você afasta as pernas e bota as mãos na cabeça (parece um raio x). Não tendo nada escondido dentro do corpo, passei e fui resgatar minha bagagem até que uma moça perguntou se eu tinha uma câmera na bagagem. Eu confirmei. Ela perguntou se podia ver, eu disse que sim. Ela pediu para eu pegar. Maluco, ela revistou minha câmera minuciosamente. Ela retirou a lente da minha câmera semi-profissional pra olhar dentro do corpo da câmera. Bizarro!

Depois de tudo isso que eu passei só vejo esse garoto vindo na minha direção com cara de triste e sem dignidade:

aeroporto amsterdam
Ele teve de tirar o tênis para que o tênis pudesse ser revistado. Inclusive o tênis passou sozinho pelo raio-x. Maior doidera

Outra coisa muito louca em Amsterdã é o transporte urbano. Eu fiquei um pouco chocada com o transporte em Amsterdã porque ele parte da premissa que os seus usuários são honestos.

Eu tinha um cartão de 72 horas para andar no transporte público de Amsterdã. Eu andei principalmente de trem (VLT). Nele você tem que fazer check-in e check-out, ou seja, passse o cartão na entrada e na saída. Só que quando passou as 72 horas o cartão expirou, eu fui passar e ele não passou. Só que no trem tinha muita gente subindo, uma atrás da outra, ninguém viu que meu cartão tinha sido rejeitado, porque o trem lá é assim: não tem roleta, não tem portinha de abre e fecha, nada que garanta que você não vai utilizar o serviço se não pagar. Ou seja, é perfeitamente possível viver em Amsterdã e pagar pelo transporte quase nunca. Depende só de você. Meu cartão foi recusado e eu comprei outro abordo do trem e passei novamente, mas só porque eu quis.

Voltando de trem  de alguma coisa que eu fui fazer fora de Amsterdã, eu já tinha o ingresso. Eu comprei ida e volta juntos. Só que na hora de voltar eu não conseguia encontrar de onde saia o meu trem. O ingresso não tinha horário, valia pra qualquer um. Mas eu não conseguia achar onde ficavam os trens da tal companhia. Virei a estação do avesso. Pedi informação e nada. Peguei o primeiro trem pra Amsterdã Central da primeira companhia que vi. Já que o sistema te permite viajar tendo ou não ingresso, peguei qualquer um. Não me orgulho disso, mas fazer o quê? O que não podia era eu ter perdido o dinheiro do ingresso, nem ficar presa numa parte desconhecida da Holanda né?

Outra coisa curiosidade em Amsterdã: era uma manhã comum pra mim, acordei, fui pro centro. Eu já estava no final da viagem e me sentia como alguém que morasse lá sem nada pra fazer, eu simplesmente andava sem rumo pela cidade. Teve um dia que vi todo mundo descer do trem numa estação lá e me informaram pra descer também. Não entendi nada. O trânsito estava interditado. Fiquei tensa, sem saber o que tava acontecendo. Qualquer coisa que acontecia de diferente me deixava nervosa, o ataque terrorista na França tinha sido há pouco tempo atrás. Muita polícia na rua. Mas havia uma multidão também, mas as pessoas estavam tranquilas aí fui ficando mais calma. Sabe o que era? Lembranças do nazismo. Em maio acontece uma série de eventos em memória da segunda guerra mundial. No dia 4 de Maio eles lembram dos mortos em decorrência do nazismo e no dia 5 eles comemoram o fim da ocupação pela Alemanha nazista. Bacana né? Afinal “aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”, não é mesmo ?

Bom gente, essa foi mais uma crônica pra vocês das minhas vivências em Amsterdã que eu amo de paixão, até a próxima!

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